BENEFÍCIOS À SAÚDE

 

A cachaça, que nasceu da indústria do açúcar (o Brasil foi por mais de duzentos anos a terra do açúcar), bastarda e clandestina, merecendo depois proclamação de legitimidade, tornou-se uma bebida nacional.

O brasileiro é devoto da cachaça, mas não é cachaceiro, ou seja, a cachaça se torna um eixo socializador entre os indivíduos, sendo comparada ao cafezinho bem brasileiro.

Está presente não apenas nas conversas de balcão das vendas e bodegas do Brasil, mas é obrigatória, igualmente, nas ocasiões festivas especiais como, por exemplo, nas festas de batizado, misturada ao mel de abelha e ao suco de maracujá, conhecida como “cachimbo” ou “cachimbada”; é, também, componente indispensável nos velórios no meio rural.

Com seu consumo difundido desde o século XVI, muitos aspectos folclóricos começaram a ser associados ao seu uso. E como Brasileiro gosta sempre de contar histórias, com a cachaça não poderia ser diferente. Existem diversas observações a respeito do rito da cachaça e seus respeitos no âmbito popular.

Existem aqueles que acreditam em uma antiga lenda relacionada a Jesus Cristo. De acordo com a história, Cristo andava sob o sol em uma longa estrada, quando avistou um canavial. Faminto e com sede chupou alguns gomos de cana. Ao ir embora abençoou o lugar e desejou que as canas fossem sempre doces e boas. Um tempo depois, o diabo andava pelo mesmo caminho e acabou parando naquele canavial. Ao contrário de Cristo, ao provar um gomo de cana sentiu um gosto azedo e que desceu queimando em sua garganta. Ele então desejou que daquele canavial o homem conseguisse apenas produzir uma bebida forte e ardente.

Começaram também a propagar-se outros costumes, de natureza medicinal, havendo receitas caseiras elaboradas muitas vezes de remédios à base da cachaça, as populares “garrafadas”.

A medicina popular registra centenas de receitas, usos e costumes para a cachaça, aconselhada para tudo: curar tosse, desencatarrar, evitar gripe, alimiar reumatismo, fazer voltar as regras, aliviar sangue sujo, como diurético, para picada de cobra (tanto por via oral como para uso tópico), e até para agradar o santo, em santa intenção.

Neste terreno da superstição, existem aqueles que tem o costume de jogar a cachaça no chão antes de consumi-la, com o objetivo de se obter mais sorte na vida, ou doar ao “Santo”, seja qual for: " O gesto de jogar um pouco da bebida no chão, antes de beber, nasceu num ritual chamado Libação, criado por gregos e romanos, e consistia em uma oferenda aos deuses para que eles provessem os lares de felicidade, harmonia e fartura", explica o jornalista Edson Borges, autor de uma vasta pesquisa sobre a relação entre a cachaça e as religiões. Tal oferenda teria sido praticada no Brasil graças à influência dos colonizadores portugueses.

Conforme o Libatio - costume arraigado e natural no nosso povo, desaparecido há quase dois mil anos no uso religioso e mantido no costume inconsciente - não se começava uma refeição grega ou romana sem a libação. Era a participação sagrada no alimento terrestre.

Esta superstição ainda existe, usual e viva, no Brasil.

Muitas histórias presenciando atos de libação são descritos por Câmara Cascudo em seu texto "Derramar bebida no chão": "(...) Quantas vezes nas minhas pesquisas em Natal ouvi o diálogo clássico entre os veteranos cachaceiros. Enchido o copo, o que paga diz a frase ritual: Vamos dar-lhe! O homenageado deverá responder: Venha de lá, valendo exigir que o outro beba em primeiro lugar. Este retruca: Venha de lá que eu vou de cá! Tradução: "Beberei depois de você"; O homenageado sacode uma porção de "branquinha" no chão, e ingere. Passa o copo ao outro que sorve sua parte. Atualmente é o ofertante que joga no solo o que sobrou da bebida. (...) É o comum, diariamente verificável, cerimonial antiqüíssimo porque é cumprido sem que mais se conheça sua significação. Desapareceu qualquer elemento compulsivo mas continua obrigatório, indispensável no costume, fazendo parte integrante da etiqueta normal, da boa educação no plano da camaradagem."

Conforme a história da Cachaça nos conta, na descoberta do caldo azedo com o nome de Cagaça, este era servido aos escravos como bebida e alimento. Assim, "com essa imposição de consumo da cachaça pelos negros, os portugueses também impuseram São Benedito, filho de um escravo, como padroeiro da aguardente, fazendo nascer daí uma relação bem mais ampla dos negros com o santo siciliano, a ponto de surgirem irmandades na Bahia", explica o jornalista e pesquisador Edson Borges.

Além da ligação com a religião católica, a aguardente também passou a ser usada em oferendas nas religiões de matrizes africanas, principalmente no candomblé. A finalidade era semelhante à da Libação: pedir proteção aos Orixás.

"Quando comecei a estudar o catimbó (Meleagro. Rio de Janeiro, Editora Agir, 1951) encontrei o mesmo complexo no mundo da magia branca e negra, entre os "mestres" do catimbó e os babalorixás do Xangô. (...) No catimbó todo o cauim (aguardente) bebido foi preliminarmente defumado com a "marca" (cachimbo do mestre) e deve uma parte ser atirada no chão em homenagem aos mestres, os soberanos dos reinos invisíveis, doadores dos "bons saberes". Em certos catimbós a obrigação deve ser feita antes e depois de beber. Antes de tocar com os lábios e depois de haver sorvido a porção protocolar. Nos mais rústicos e antigos catimbós, o de mestre Dudu da Serrana, na margem esquerda do rio Potengi, diante da cidade do Natal, derramava-se um copo inteiro de cachaça antes de qualquer "trabalho", logo depois de aberta a sessão e cantada a "Linha de abertura". Nos mais adiantados onde os "mestres" tinham lido e viajado (Pará, Bahia, Recife ou Rio de Janeiro) a oferta cingia-se às gotas jogadas ao solo, antes ou depois de beber-se. Era fatal, com os "mestres" fiéis à tradição catimbozeira na legitimidade da expressão, o gesto para que o bebedor deixasse o copo inteiramente vazio. O copo com algum líquido, depois da bebida, era uma falta manifesta de respeito aos "mestres", invisíveis e poderosos." (Câmara, Cascudo. 1991)

Há também outros procedimentos, tal como o dever de deixar um pouco da bebida no copo, a fim de ser jogada fora, por cima do ombro direito, com vistas a um "ofertório" às almas em geral, em particular às dos bêbados.

Essa identidade cultural e religiosa da aguardente gerou todo um folclore em torno da bebida. Há orações para bebedores, apelidos (como "urina de santo", "aquela que matou o guarda", "água que passarinho não bebe") e rituais, como o de fazer a cara feia, depois de beber a cachaça. "Para espantar o diabo". Isto nos dá a medida de quanto a cachaça perpassa o cotidiano do brasileiro.